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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Agora, entregar o que promete
Auspiciosa a notícia da inauguração, no último dia 8, da Biblioteca de São Paulo. Plantada no Parque da Juventude, área onde funcionou até poucos anos atrás a tristemente lembrada Casa de Detenção do complexo do Carandiru, a Biblioteca de São Paulo propõe-se ao audacioso desafio de funcionar como um centro dinâmico de cultura, um modelo inovador de biblioteca tecnologicamente equipado para se integrar à comunidade, atrair leitores e promover o hábito da leitura. E, paralelamente, treinar profissionais para a rede de bibliotecas municipais e privadas (mais de 900) espalhadas por pouco mais de 600 cidades do Estado.
Esse é o importante serviço a ser prestado a São Paulo e ao Brasil pela nova unidade da Secretaria da Cultura do Estado. Mas outro serviço, certamente não menos relevante, a Biblioteca de São Paulo já prestou ao País: comprovou a agilidade e eficiência de um modelo de gestão que permitiu a sua instalação completa e sua inauguração em prazo inacreditavelmente curto para uma obra pública desse porte.
Tal qual já ocorre com a Casa das Rosas, o Museu da Língua Portuguesa, a Casa Guilherme de Almeida e o projeto São Paulo: Um Estado de Leitores (Spel), a Biblioteca de São Paulo está vinculada à organização social Poiesis - Associação dos Amigos da Casa das Rosas, da Língua e da Literatura, associação civil sem fins lucrativos que, nessa condição, está desobrigada de se submeter ao enorme cipoal de entraves burocráticos que regula, por exemplo, a licitação de obras na administração direta. Caso exatamente inverso, e tristemente significativo, é o da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, a maior biblioteca do Estado e a segunda do País, superada apenas pela Biblioteca Nacional, que está há três anos fechada à espera de que a burocracia oficial se entenda sobre objetivos, custos e prazos de uma reforma há décadas reclamada, já muito bem concebida e planejada, mas que ninguém ousa prever quando será finalmente completada.
Não se pode comparar, é claro, de um lado, o porte de uma instituição como a Mário de Andrade, que reúne um acervo de cerca de 3,2 milhões de itens documentais num prédio de 22 andares, e, de outro, o tamanho da biblioteca estadual, com 4.200 metros quadrados e acervo inicial de 40 mil livros, CDs e DVDs (até porque esta última não se propõe a ser apenas, ou principalmente, um depositório de acervos). Mas a comparação entre os modelos de gestão aplicados na reforma de uma e na instalação de outra explica, para além de qualquer dúvida ou tergiversação estatizante, por que a Mário de Andrade está fechada há três anos, enquanto o projeto de criação da unidade estadual foi concebido e realizado em poucos meses.
Há menos de dois anos o secretário de Cultura, João Sayad, foi buscar na capital chilena o modelo da Biblioteca de Santiago, fundada em 2005 com a proposta inovadora de transformar o conceito tradicional de gabinete de leitura em centro dinâmico de cultura voltado para uma intensa ação proativa na captação de "clientes", especialmente o público jovem - e, consequentemente, no incentivo ao hábito da leitura. É claro que, como ocorre na de Santiago do Chile, na nova biblioteca paulista será possível também consultar e até tomar emprestados livros de um acervo que, inicialmente modesto, certamente crescerá com novas aquisições e doações. E a captação desse acervo deverá dar atenção especial a lançamentos editoriais mais recentes e bem-sucedidos em vendas, como parte importante da estratégia considerada mais adequada para atrair o público jovem. João Sayad costuma dizer que a Biblioteca de São Paulo "precisa parecer e atuar mais como uma livraria do que como uma biblioteca tradicional". E a arquitetura interna, associada à decoração da nova unidade, remete realmente à ideia de uma dessas modernas, amplas e coloridas megalivrarias que nos últimos anos passaram a conquistar espaço nos shopping centers, e não ao ambiente sisudo e silencioso de uma biblioteca tradicional.
Tudo muito bonito, colorido e promissor. Até pela natureza quase lúdica do trabalho que se propõe a desenvolver, e da agilidade para tanto que o modelo de gestão de uma organização social propicia, a visibilidade pública da nova biblioteca está praticamente garantida. Mas igualmente muito importante - embora certamente menos charmosa -, porque se bem-sucedida resultará na multiplicação dos efeitos positivos de uma ação cultural voltada para o livro e a leitura, será a tarefa de preparar profissionais para atuarem nas centenas de bibliotecas públicas e privadas que se espalham por todo o Estado. As municipais, principalmente, são em sua grande maioria absolutamente carentes de mão de obra minimamente especializada. E por isso a triste realidade é que não funcionam.
O quadro de funcionários de uma biblioteca, e não necessariamente apenas os atendentes, deve ser constituído, por definição, por profissionais preparados e dedicados à mediação da leitura. É verdade que nem mesmo nas grandes livrarias é fácil encontrar atendentes familiarizados com livros. É clássica, tanto quanto folclórica, a história do "livreiro" que, solicitado a ajudar na procura de Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, encaminhou o leitor à estante de agricultura. Mas o comércio varejista não tem obrigação - e, geralmente, nem vontade - de entender de livros. Já do poder público é razoável esperar que cumpra por inteiro as responsabilidades que assume.
Vamos torcer, portanto, para que a Biblioteca de São Paulo nos entregue tudo o que promete
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Passando a noite em uma biblioteca
No fim da tarde de um sábado de maio, os funcionários da Biblioteca Municipal de Seixal, a 30 quilômetros de Lisboa, organizavam as estantes de livros. Embora esse fosse o procedimento-padrão antes de encerrar o expediente, naquele dia a arrumação tinha outro motivo: receber um grupo de 20 meninos e meninas, entre 8 e 11 anos, que iriam passar a noite ao lado dos livros. Oito e meia da noite era a hora marcada para começar a exploração de um am biente repleto de saberes, com muita leitura e contação de histórias, e que só terminari a na manhã seguinte.
Ao chegar, para que todos se conhecessem, nada de apresentações formais. Os pequenos preencheram os crachás uns dos outros. Enquanto Diogo, o mais velho do grupo, fazia o de Beatriz, ela revelou uma de suas leituras preferidas: a poesia portuguesa de José Jorge Letria. Sabe por quê? "Porque ele me faz sentir bem", explicou, do alto de seus 8 anos.
Com todos já devidamente identificados, começou uma correria pelo ambiente. Como se estivessem em uma caça ao tesouro, as crianças seguiam pistas e procuravam por respostas para as questões escritas em fichas que tinham em mãos. Tratava-se de um desafio -- ou melhor, um peddy-paper, como se diz em Portugal -- para descobrir como é organizada e funciona uma biblioteca.
Regras decifradas e normas esclarecidas, hora de vestir o pijama, arrumar os sacos de dormir e ouvir histórias para embalar o sono e, quem sabe, alimentar os sonhos. Caprichando na entonação, a bibliotecária Susana Filipe leu O Incrível Rapaz Que Comia Livros, obra escrita pelo australiano Oliver Jeffers. Quando a leitura terminou, Tomáz, 11 anos, lá no fundo da sala, gritou: "Mais uma, mais uma! Pode contar mais 1,5 bilhão de histórias!" Pedido atendido: com as luzes apagadas, Susana leu A Grande Questão, do alemão Wolf Erlbruch. Um a um, os pequenos adormeceram.
No dia seguinte, assim que acordaram, as meninas correram a se enfeitar com presilhas e tiaras. Os meninos lotaram as mãos com gel para domar os cabelos rebeldes. Tudo muito rápido porque ninguém queria desperdiçar um só minuto da programação de domingo. Depois do desjejum, mais uma história - dessa vez, de autoria da brasileira Ana Maria Machado: O Pavão do Abre-e-Fecha. O enredo alimentou o desejo da turma de se perder entre as estantes da biblioteca à procura de novos títulos. "É importante que as crianças também possam escolher livremente para que a leitura seja significativa", disse a bibliotecária Carla Gomes. Ao seu lado, a funcionária Maria Elizabete Ferreira, que também passou a noite em claro velando o sono da garotada, confessou que para ela a recompensa do projeto está guardada para o futuro. "Esperamos que, depois de crescidos, todos esses estudantes se lembrem dessa noite e saibam que uma biblioteca é um espaço de aprendizagem."
Pelos corredores do prédio, enquanto os pequenos arrumavam as mochilas para voltar para casa, era possível ouvir suas vozes, ecoando "Vitória, vitória, acabou-se a história!", uma frase típica portuguesa que marca o fim dos contos infantis neste lado do oceano.
Artigo de Taynar Costa publicado na Revista Nova Escola, edição 225, setembro de 2009. Foto de Luciana Cristovam.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Estado terá biblioteca central no Carandiru
Com jeito de livraria, espaço vai permitir a leitores acesso fácil aos livros; 961 unidades municipais poderão estar interligadas à sede paulista
Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise
A nova biblioteca - com projeto inspirado na Biblioteca Pública de Santiago do Chile - será utilizada como modelo para outras unidades. "O livro estará ao lado de todos os outros suportes, como CDs e DVDs, jornais e revistas. Será um espaço dinâmico, onde os livros não mofam nas estantes", diz o secretário de Estado da Cultura, João Sayad. "Queremos que fique parecido com grandes livrarias, que hoje recebem muito mais leitores do que bibliotecas."
Para se assemelhar às livrarias privadas, o projeto prevê estantes baixas, com livros ao alcance das mãos. Os bibliotecários serão instruídos a "atuar como vendedores", oferecendo dicas de livros para visitantes. No acervo de cerca de 30 mil livros, a promessa é que não haja espaço para preconceito - poderão ser encontrados livros e revistas com acesso proibido para menores de 18 anos. "Vai ter Machado de Assis, mas defendo que tenha Playboy também", afirma Sayad.
Projetada para ser totalmente acessível, a biblioteca terá um equipamento inovador: um "scanner" que transformará livros normais para a linguagem braile e em audiobooks. "Abrirá um leque enorme de leitura para pessoas cegas", diz o secretário. Equipamentos para autoempréstimo também estarão disponíveis. No que diz respeito ao mobiliário, com diversos tipos de cadeiras, bancos e mesas, nada será comprado pronto - todas as peças serão criadas por designers contratados.
Para a criação da biblioteca, serão investidos R$ 12,5 milhões - R$ 10 milhões do Estado e R$ 2,5 milhões do Ministério da Cultura. Ainda haverá verba de R$ 1 milhão para compor o acervo. "Devemos ter um valor semelhante, todos os anos, para atualizá-lo", diz Adriana. Uma vez pronta e aberta, a biblioteca será administrada pela Poiesis, organização social à frente também da Casa das Rosas e do Museu da Língua Portuguesa. "Vamos fazer dela uma biblioteca que não tenha medo do prazer, que incentive a leitura", explica o poeta e crítico literário Frederico Barbosa, diretor da Poiesis. "Nada daquela imagem de um lugar escuro com uma velha chata fazendo ?psiu?".
Não é a primeira vez que Barbosa tem a missão de conduzir uma biblioteca. De 2006 a 2008 ele foi curador, a convite da Prefeitura de São Paulo, da Biblioteca Alceu de Amoroso Lima, em Pinheiros - comandou a transformação dela na primeira biblioteca temática da cidade, dedicada à poesia. Talvez por isso esteja bastante otimista com o novo projeto. "Esperamos fazer uma biblioteca viva, pulsante", afirma, enfatizando a importância de que nela seja realizada uma intensa programação cultural, com debates, leituras e shows. "Será um centro de comemoração da vida e da literatura."
Os planos não param por aí. Instalada a biblioteca central, a meta será integrar toda a rede de bibliotecas públicas paulistas. "O primeiro passo será a criação de um sistema único de busca", conta Barbosa. "Só depois vem o nosso grande sonho: universalizar o acesso. Queremos que qualquer cidadão paulista, por sistema de intercâmbio, tenha acesso a livro de qualquer biblioteca."
terça-feira, 23 de junho de 2009
Não abrace táxi, junte com cambito
Coluna de Ignácio de Loyola Brandão publicada em O Estado de S. Paulo em 19/06/2009.
Se alguém pedir: por favor, pode me destentar este cheque, e se você souber que o sujeito é farinha de cruzeiro, destente. Se tiver dinheiro, tudo bem, é .tarefa que você pode realizar sem abraçar táxi. Vai ser como juntar com cambito. E se avistar um homem usando bosoroca não estranhe, ele é homem mesmo. Ao ouvir "cuida, menina", não se preocupe. Agora, saindo por aí, cuidado com as peremas. Grande e vasto é o Brasil, digo sempre, sem medo do clichê. Porque é mesmo.
Felizmente, viajar por causa da literatura tem me ajudado a conhecer o País e, principalmente, descobrir as múltiplas variações de nossa língua. Vou incorporando aos meus caderninhos os vocabulários locais, além de trazer dicionários regionais. Destentar é descontar. Abraçar táxi é trabalho difícil (diga tachi e não táxi), é sofrer. Bosoroca é uma bolsinha onde se carregam cartuchos. Cuida, menina significa se apresse, avie-se! Farinha de cruzeiro é gente boa, confiável, enquanto juntar com cambito é coisa fácil de fazer. Peremas são mulheres dadas, oferecidas, assanhadas e até mais do que isso.
Aos dicionários de gauchês e epernambucanês já acrescentei o baianês e o cearês. Agora tenho o acreano, do Gilberto Braga de Mello, delicioso. Gilberto, como todo acreano, firma pé. Apesar da reforma ortográfica, os acreanos, com E, se recusam a se tornar acrianos, com I. Que se mantenha o E, clamam, indignados. Ouçamos, minha gente, essas vozes distantes, elas não estão separadas do Brasil.
Eu tinha saído de minha palestra no auditório da Filmoteca que está acoplada à Biblioteca Estadual, uma preciosidade encravada no centro de Rio Branco, a capital. Um edifício moderno, funcional, com grandes janelas, muita luz, internet com acesso grátis, chão sofisticado com ladrilhos hidráulicos, originais, vindos do antigo prédio que havia no lugar. Uma das mais belas bibliotecas que vi no Brasil, opinião compartilhada por um especialista de gabarito, José Castilho Marques Neto, que comanda o Plano Nacional do Livro e Leitura e, encantado, não se cansou de fotografar tudo. Os acreanos (com E) estão dando uma lição ao Brasil em matéria de biblioteca.
A biblioteca fica de frente da praça onde aconteceu a primeira Bienal da Floresta do Livro e da Leitura, nome poético, para um evento ocorrido em 35 stands de livrarias e editoras, além do uso de auditórios por toda a cidade. A ideia da Bienal foi do jovem governador Binho Marques, que convidou Pedro Vicente Costa Sobrinho, um potiguar naturalizado acreano, e Helena Carloni, que dirige a bela (repito) biblioteca. Juntou-se a eles Daniel Zen, presidente da Fundação Cultural. E tudo aconteceu.
O homenageado foi uma figura singular e sempre bem-humorada, o contador de histórias e artista plástico Francisco Gregório Filho, cuja figura lembra um patriarca com sua barba branca e magreza de um asceta. Um homem que há meio século batalha pela cultura acreana, tendo sido várias vezes presidente da Fundação Cultural do Estado. Acreanos são Chico Mendes, Marina Silva, Armando Nogueira, João Donato, Glória Peres. Cerca de 40 escritores agitaram a semana, entre eles Luiz Ruffato, Marcus Acioly, Marcio de Souza, Fernando Monteiro, Luiz Galdino, Nelson Patriota, Jorge Tufic, Fabio Lucas, Homero Fonseca, Jomard Muniz de Britto, Alexei Bueno, Gilberto Mendonça Telles. Tudo bancado pelo governo. Clodomir Monteiro, presidente da Academia Acreana de Letras, nomeou a Fabio Lucas e a mim membros correspondentes da AAL. Somos de lá e somos de cá. Academias se abrem umas as outras.
"Olhe para cima, verá isso apenas aqui", dizia Val Fernandes, fotógrafa que dia e noite, sem parar, registrou cada mo mento, cada pessoa, cada gesto na Bienal. Às margens do Rio Acre, um céu turquesa, de filmes orientais, numa cor que nenhum impressionista conseguiria produzir, estendia-se avassalador sobre nós, enquanto cervejas geladas e empadas enormes chegavam à mesa deste bar do Mercado Velho, construído em 1929, e recém-restaurado. Para um lado, as águas seguem em direção ao Rio Purus, que penetra no Peru. Pelo outro, vão em direção à Bolívia, marcando fronteira em longa extensão. O poeta Naylor George, apaixonado pela sua cidade, conhecedor de cada canto, cada prédio, cada rua, cicerone dedicado, me diz que daqui é mais fácil chegar a Machu Picchu que a São Paulo. Aqui estamos mais próximos dos incas e maias, se quisermos nos exceder na imaginação.
No rio, lá embaixo, catraias navegavam de uma margem à outra. Custa 50 centavos a travessia. Foi lembrado o tempo em que havia dois cinemas na cidade, um no Primeiro, outro no Segundo distrito. Um dos ricos, outro dos pobres. Em Rio Branco pode-se dizer que, como em Paris, há rive gauche e rive droite. O filme era o mesmo nos dois cinemas, as sessões começavam com diferença de horários. Assim, terminado o primeiro rolo em um, o catraieiro Goiaba, figura popular, agarrava a lata e corria, atravessava o rio, no braço, a remo, entregava no cinema. A sessão inteira era ir e vir. Dias de enchente, águas revoltas, sofria o pobre Goiaba. Dizem que ele nunca trocou um rolo.
Depois de visitar o mercado de verduras e frutas (que nada tem a ver com o mercado antigo, tombado), onde se pode comprar a banana comprida (cada uma tem entre 30 e 40 centímetros), a farinha de mandioca amarela, a pimenta ou castanhas do Pará preparadas artesanalmente, saborosas, atravesse para o Segundo Distrito e percorra as casas e lojas restauradas que pertenceram aos sírios libaneses, primeiros comerciantes na fundação da cidade. Caminhe pelo calçadão à beira rio cheio de bancas de flores amazônicas, entre elas a uirapuru e a caatinga de mulata e de mangueiras centenárias tombadas pelo Patrimônio.
Aqui, nos idos 900, ancoravam os batelões e as chatas que traziam mercadorias da Europa para os ricos (as mulheres usavam vestidos com alças de ouro), que frequentavam o fechadíssimo Tentamen, clube da elite; restaurado em todo o seu esplendor, hoje é alugado para festas e eventos. Ainda existem exemplares gigantes do apui, árvore cuja seiva os índios usavam para colar ossos fraturados. Vá até a gameleira imensa onde a cidade se iniciou. Diante do rio, o bar do Grassil Roque com um caldinho de feijão fervente de explodir a língua. Ao lado, na Varanda do Porto, do Telmo, bebe-se cerveja em mesas quase lançadas ao espaço sobre o Rio Acre.
Em frente, uma das dezenas de Casas de Leitura (com centenas de poesias pregadas nas portas e paredes) que a cidade possui, que acolhe principalmente crianças. Além dessas casas, pelos parques espalham-se os quiosques com bibliotecas que o povo utiliza a granel nos fins de semanas, feriados, fins de tarde. Admirado com a noite fresca? São os ventos que sopram da Cordilheira dos Andes, na crendice popular.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Biblioteca e cidadania
Já houve tempos em que a biblioteca exerceu a função de espaço para constituição de cidadania. Lá os jovens se encontravam, trocavam ideias e se informavam, na condição mais igualitária possível. Livro, revista, jornal, espaço, serviço da bibliotecária, mesa para ler e escrever e saguão para conversar. Tudo gratuito.
Frequentar uma biblioteca, apesar de todas as vantagens descritas acima, parece que está caindo em desuso.
Para substituir esse saudável hábito, as livrarias estão tomando ares de biblioteca. As modernas têm até poltrona e sofá, onde se pode consultar ou ler um pouco, além de barzinho para tomar café com bolinho. Tudo tão parecido com as bibliotecas de antigamente!
Sei que a internet preenche uma parte dessas funções, mas nem todas. Falta o calor do olhar e do som das vozes. A tendência dessas novas livrarias confirma o prazer de manusear livros, de ler trechos sem compromisso, mas com conforto, e de trocar ideias ao vivo.
Qual será o problema das bibliotecas que são inauguradas em série pelos governos, mas parecem não desabrochar? Será que funcionam de forma insatisfatória porque são pouco frequentadas ou são pouco frequentadas porque funcionam de forma insatisfatória? Não vou resolver esse dilema.
Certas funções que elas exerciam continuam sendo importantes. Sua ausência representa falta de espaço público protegido para que possa haver socialização em torno de informações e de ideias.
Era nos saguões e no entorno das bibliotecas que se falava de música, cinema e teatro -difundindo posições e opiniões.
Conversar em volta da estátua do saguão da Biblioteca Municipal de São Paulo era fazer parte de uma geração, de uma turma: era uma identidade. Ali se folheavam revistas, liam-se livros clássicos e modernos e faziam-se anotações para os livros que se sonhava escrever.
Quero frisar que esse jeito tão democrático de encontro possibilitou a várias gerações de jovens oriundos dos quatro pontos da cidade o acesso à cultura e à cidadania. Só custava a condução para chegar até lá.
Os entornos de biblioteca que conheci poderiam hoje se chamar de shopping center de ideias e de bons hábitos culturais. Grande parte dos professores da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), da USP, até hoje se reconhece como integrante da "geração biblioteca".
Nas últimas décadas, comprar livros tornou-se mais comum do que era antigamente. Será que a biblioteca foi ficando com cara de "coisa de pobre"?
E onde fica o novo saguão das bibliotecas? Será que as livrarias como a Cultura, a da Vila ou a Martins Fontes estão conseguindo ocupar esse espaço?
Na Antiguidade, existia a praça ou o mercado, onde se trocavam ideias e informações. Onde é a nossa praça? A primeira resposta que aparece é que está na internet. Serão coisas equivalentes? Vai ver são...
A reflexão sobre a diferença entre internet e praça de encontro fica para outra coluna.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Sonhos e bibliotecas
Reconhecendo a importância de formar leitores, ou seja, o papel educativo, cultural e socializador das bibliotecas, o grupo, além das dirigidas para adultos, idealizou também a criação de uma rede voltada especificamente para crianças e jovens, das quais a Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, criada em 1935, foi a primeira.
Tal movimento desembocou na criação da maior e mais complexa rede de bibliotecas públicas do País, cujo apogeu durou desses anos iniciais até os 60, quando a massificação começa a se impor como padrão dominante das políticas públicas de educação e cultura no País. A partir dos anos 70 esse formidável patrimônio cultural perde o rumo e até hoje, infelizmente, não conseguiu se refazer nem sequer compreender o que lhe aconteceu e está acontecendo.
Quem, por exemplo, freqüentou a Biblioteca Monteiro Lobato em seu período áureo, encontrou ali um ambiente estimulante e vivo, onde era possível estar em contato com acervos diversificados e atualizados de periódicos e livros, alguns, inclusive, em línguas estrangeiras. Além de importante centro irradiador, a biblioteca “dos modernistas” era local de intensa produção e intercâmbio simbólicos, de interações de importância essencial à inscrição dos seus freqüentadores nas tramas da criação cultural.
Na Monteiro Lobato, além das atividades fundamentais de leitura, da Hora do Conto, havia oficinas permanentes de criação literária, de artes plásticas, de confecção de jornais; havia, também, cotidianamente, encenações teatrais, debates, palestras, encontros com autores e muitas coisas mais. O jornal A Voz da Infância fez história, na biblioteca. Muitas cabeças boas, que produziram e até hoje produzem informação e cultura no País, publicaram seus primeiros escritos ali.
Da mesma forma, criações teatrais do Teatro da Biblioteca Monteiro Lobato (Timol) emocionaram e fizeram pensar milhares de crianças. Um ator e diretor hoje conhecido de todos, Marcos Caruso, não só se formou nesse grupo, como, depois de adulto, dirigiu-o por bastante tempo. Contemporânea da primeira biblioteca infantil criada em Paris, em 1925, a Biblioteca Monteiro Lobato era motivo de orgulho especial para aqueles que tinham oportunidade de freqüentá-la. Suas realizações, suas dinâmicas, aliadas à imponência do novo prédio que até hoje resiste, implantado nos anos 50 no Centro de São Paulo, apontavam não só para a memória cultural da produção infanto-juvenil, mas para o presente e o futuro. A Monteiro Lobato alimentava esperanças. A partir dela, podíamos vislumbrar cidadãos capazes de tomar os destinos do País nas mãos.
Apropriação ou expropriação
Exemplo como esse nos permite chamar a atenção para a diferença existente entre um mero depósito de livros e um ambiente efetivo de conhecimento e cultura. Aqueles que tiveram a oportunidade de freqüentar a Lobato sabem que existem diferenças fundamentais entre políticas públicas de democratização e políticas de massificação cultural, entre práticas de apropriação e práticas de expropriação simbólica, vigentes entre nós desde a colonização. As primeiras acolhem, abraçam, abrem espaço, incentivam as trocas, o livre-intercâmbio de idéias; as segundas banem, afugentam, excluem.
Para superar condições de mero entreposto e tornar-se espaço de cultura vivo, dinâmico, atrativo, a biblioteca não pode simplesmente existir, entregando ao acaso sua dinamização. É preciso atuar, agir, criar metodologias e estratégias compatíveis com projetos históricos empenhados em reverter o quadro de exclusão que sempre marcou a vida nacional; é preciso combinar opções de políticas públicas inclusivas com práticas culturais da mesma natureza, criando-se uma dinâmica entre macro e micro ações visando à participação e inclusão de todos nos processos de conhecimento e cultura.
Ao mesmo tempo que uma biblioteca contemporânea deve ser aberta a novos leitores (e também aos não leitores), é indispensável concebê-la, também, como plataforma de lançamento, ponto de acesso dos diferentes públicos a circuitos culturais amplos e diversificados. As bibliotecas devem ser como as estações, ou seja, pontos de chegada e de partida em direção aos demais dispositivos culturais da cidade, do País, do mundo. Em suma, trata-se de inserir os sujeitos não apenas na biblioteca, mas nas ricas e intrincadas tramas simbólicas de nosso tempo.
A qualidade e o compromisso público dos que nela trabalham também são elementos centrais nas políticas de apropriação cultural. Sem compreensão do papel fundamental que exercem, sem formação de base e continuada, compatível com tal compreensão, sem interesse efetivo pelos bens simbólicos, dificilmente esses profissionais serão percebidos ou se perceberão como protagonistas culturais. Não há, pois, como deixar de considerar a qualidade essencial dos mediadores. Em última análise, é no “aqui e agora” do concreto que os atos culturais ganham sentido. Mediadores desmotivados, despreparados, desinteressados, alheios às questões culturais gerais, bem como às dinâmicas singulares de seu universo imediato, não estão em condições de atender às exigências feitas por projetos destinados a reverter os caminhos excludentes da cultura no País.
Elo com a comunidade
O compromisso com uma biblioteca ativa, inventiva e participativa implica também criação de vínculos fortes com o meio em que ela se encontra. Nesse sentido, torna-se necessário não só levar a biblioteca à comunidade, mas também trazer essa e sua memória, suas histórias, suas realizações significativas para dentro da biblioteca. Uma instituição distante não cria elos fortes e duradouros com seu público.
É preciso transitar pela cultura local, da mesma forma que pela universal. É preciso buscar e coletar a memória da comunidade, registrá-la, dar-lhe forma e sentido, recriá-la, disponibilizá-la sob diferentes formas, como exposições, boletins, livros e álbuns fotográficos, tal como faz a Estação Memória, projeto criado por nós, na USP, e implantado na Biblioteca Infanto-Juvenil Álvaro Guerra, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. A atenção voltada à cultura local é contraponto necessário aos processos de globalização, num movimento dinâmico e essencial de interpenetração entre o próximo e o distante, o aqui e o lá, o “nosso” e o “do outro”.
A biblioteca contemporânea não pode aceitar o papel de entreposto de signos que as políticas e práticas de expropriação cultural sempre adotaram e continuam adotando. Deve, antes, estar antenada com as exigências de seu tempo e momento, tal como preconizou, em sua época, o grupo de intelectuais ligado a Mário de Andrade.
Assim consideradas, as bibliotecas herdadas dos “modernistas” poderão ser redimensionadas, desempenhando novamente o papel cultural essencial do passado. Não serão, em tais condições, dispositivos restritos a pequenos grupos, pertencentes em geral às elites econômicas ou intelectuais. Serão, como em várias partes do mundo e ao alcance de todos, recursos essenciais de participação na cultura. Nossos modernistas, com certeza, estarão felizes se tivermos a capacidade de reativar sonhos de inteligência e beleza na vida do País.
Edmir Perroti, autor do artigo, é professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.
Texto publicado em Carta na Escola em 09/06/2008
terça-feira, 7 de abril de 2009
As bibliotecas e a crise
Nota publicada no Boletim do PNLL (Plano Nacional do Livro e Leitura), n. 150 de 6 de abril de 2009.
